Tradução inglês português espanhol - informações, dicas e comentários

Tradução boa e tradução ruim.

Faz um tempinho que não escrevo no blog, principalmente porque estou com outro blog de outros assuntos. Mas, depois de anos trabalhando com tradutores e vendo sempre os mesmos erros, entre tradutores novatos e tradutores com mais experiência, mas que vêem essa profissão como algum tipo de hobby, eu não vejo outra alternativa a não ser escrever esse post. Esse texto era um circular interno para os tradutores que trabalham comigo, mas resolvi colocar aqui porque muitos tradutores que querem trabalhar com a Fastrad passam pelo blog para fazer os testes de tradução ou resolver problemas e colher informações. També, lembra-se que nosso glossário é gratuito e disponível aqui: http://www.fastrad.com.br/glossword/.

Orientação para tradutores. Leia com atenção. Nenhuma regra é inviolável, nada está escrito em pedra e essas orientações não servem para tudo e qualquer texto ou situação. Mas, servem em diversas situações, para diversos tipos de tradução e devem ser adotadas por todos.

Primeiro, a tradução não é a transliteração. Em grande parte, as traduções de tradutores iniciantes (ou menos atenciosos) são apenas réplicas exatas do texto em inglês, apenas com palavras em português. Em algum ou outro momento pode haver uma expressão ou outra que mostra que pensaram um pouco antes de digitar o texto, mas em 80% das traduções que recebemos o tradutor não pensou no texto em português, simplesmente foi lendo em inglês e escrevendo a mesma coisa em português. Como resultado, as frases ficam confusas, muitas vezes sem sentido, às vezes até erradas. O resultado final é penoso para revisar e desastroso para o cliente. Isso não é tradução. Por isso: a) ao traduzir e ler a frase em inglês, o tradutor deveria estar “formando” uma (nova) frase em português em sua mente que reflete o original, mas que tem vida própria e b) o tradutor deve ler a frase inteira antes de traduzir-la. Um resultado disse é que as vezes, você perde 10 minutos olhando para uma frase, sem saber traduzir-la. Simplesmente não entra na cabeça a frase certa. O vocabulário você sabe, mas a estrutura da frase às vezes demora em aparecer. Mas isso faz parte, e encontrar a tradução correta em vez de sair correndo fazendo uma transliteração faz toda a diferença, para a qualidade do seu trabalho e sua reputação.

Segundo, cada tipo de texto (seja um manual para uma maquina de tecer, uma carta de cobrança, um relatório sobre a situação econômica de determinado país, a matéria de um jornal ou um press release), são todos diferentes. Vamos dizer que são tribos. Cada tribo tem sua comida, sua maneira de construir sua moradia, seu jeito e suas ferramentas e caçar, etc. Os textos seguem o mesmo caminho. Cada família de textos requer um ponto de vista, um tom, um vocabulário e uma “colocação” diferente. Você deve procurar abordar isso em suas traduções. E a única maneira de fazer isso é lendo textos similares ao texto a ser traduzido. Se você traduz contratos para o português, você deve ler muitos contratos em português. E lendo, e depois lendo mais. E quando você esbarra num termo que desconhece, pesquisa (e muito) e monta seu próprio glossário.

Terceiro, o tradutor SEMPRE deve ler seu próprio texto depois de traduzido. Em muitos casos, não consigo acreditar que o tradutor leu o texto depois de traduzido, senão ele ou ela teria evitado vários erros básicos e esdrúxulos, que saltam aos olhos durante a leitura da tradução.

Quarto, ao iniciar uma tradução, o tradutor tem que ser um ator. Ou seja, se coloca na posição de um marqueteiro ao fazer um press release, na posição de um jornalista ao traduzir uma matéria, num advogado ao traduzi um contrato, e assim vai. Novamente, lendo textos relevantes vai ajudar muito a progredir nesse sentido, porque cada texto é escrito de uma maneira muito específica, com terminologias e estruturas peculiares. Uma vez feito isso, o tradutor também deve lembrar que está engessando o texto ao escrever-lo. Isso quer dizer que se você estiver usando determinado “mind set” para traduzir o texto inteiro, o texto inteiro tem que ser alterado se estiver mal colocado. Em muitas ocasiões, como revisor, eu tenho que re-escrever parágrafos inteiros, não é somente o caso de mudar uma palavra ou outra. E ao re-escrever a metade do texto, não posso deixar a outra metade sem mexer porque perde a coerência e transpassam dois etilos de escrever divergentes.

Quinto, e isso é mais uma informação do que uma orientação, o melhor meio de conseguir mais clientes e crescer é através da recomendação, da propaganda boca-a-boca, e somente ganhamos a confiança do cliente com trabalho de qualidade. Pode acreditar, é mais do que possível uma pessoa sair de uma empresa onde você fez apenas meia dúzia de boas traduções em dois anos e passa a trabalhar em outra, levando você junto, recomendando seu trabalho no novo emprego. E nisso, a nova empresa pode precisar de dezenas de milhares de palavras de tradução por mês, que podem ser canalizados para você.

Sexto, adjetivos: temos, como exemplo, a frase “externally-hosted web, cloud and SaaS apps”. “Externally-hosted” é um adjetivo, como web, cloud e Saas. O substantivo é apps. Certo? Então temos os “aplivativos” (substantivo) do tipo web, nuvem e SaaS (primeiro nível de adjetivos – lembea-se que os adjetivos também têm hierarquia) hospedados externamente (segundo nível de adjetivos). Aplicativos web, nuvem e SaaS hospedados externamente. A versão de um tradutor: web hospedada externamente, nuvem e aplicativos SaaS. Outro exemplo: “Windows devices and applications”. “Dispositivos e aplicativos Windows”. Alguns tradutores traduziram isso como “dispositivos Windows e aplicativos”. Isso é falta de atenção, muita pressa e demonstra pouco carinho por seu trabalho.

Sétimo, estilo (para tradutores inglês-português):

  1. Simplificar é melhor que complicar.
  2. Em alguns textos, ao traduzir um texto de inglês para português, tenta tirar os sujeitos em frases mais complicadas. Por exemplo, “The solution allows users to navigate, search and buy on the Brazilian version of the portal, from an Internet connected smartphone”. Em vez de
    • “A solução permite que o usuário navegue, busque e compre através da versão brasileira do portal, a partir de um smartphone conectado à internet”,
    • que tal “A solução permite navegar, buscar e comprar na versão brasileira do portal, a partir de um smartphone conectado à internet”.
  3. Inverte as orações da frase.
  4. Tenta evitar a voz passiva.
  5. Use a palavra COM. Por exemplo: “This new product allows users to take control of their workspace”. Com frequência, é traduzido como “Esse novo produto permite aos usuários tomar o controle das suas áreas de trabalho.” Por que não experimentar um pouco, no estilo “Com esse novo produto, o usuário consegue controlar sua área de trabalho”?

E antes de esquecer, passe o corretor ortográfico. Please?

Como sempre, falei demais. Pessoalmente, não tenho problema com erros, que podem ser corrigidos e que não se repitam, mas fico irritado quando me parece que o trabalho foi feito as pressas, sem pensar no cliente, no futuro ou nos colegas. Não precisamos ser os melhores escritores do mundo, precisamos ser pacientes, precisos e pontuais. Todos erram, por isso todos os  tradutores deve ter um revisor, mas o trabalho do revisor é de revisar e não de re-escrever a tradução.

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